quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Um Dia Quero Ser...

                          


Um Dia Quero Ser...

Quando era pequenino, queria ser motorista de caminhão quando crescesse. Não passou muito tempo, e desisti.

O tio caminhoneiro fugiu de casa; a esposa entrou em paranoia em poucas semanas.

Num sábado bem cedinho, a tia paranoica me chamou aos berros:

— Moleque! Ô, seu moleque! Vem aqui agora! Se você demorar, lhe busco pelas orelhas, indecente!

Lá fui eu, pequenino, correndo nas pontinhas dos pés.

— Sim, senhora. Tô aqui!

— Debaixo da pia tem uma lata com um papel amarelo com desenho em preto. Pega lá pra mim.

Dei meia-volta e saí correndo. Chegando na pia, achei a lata atrás do botijão de gás, que ficava debaixo da pia.

Retornei correndo e depositei a lata na mesa, em frente à irmã da mãe dela, que era meia-parangolé.

— Busca um copo de água pra mim agora, seu peste! — esbravejava a tia meia-louca.

Ligeiro, ligeiro, busquei um copo d’água da tália para a desconchavada.

— A colher! Cadê a colher, ô, cabeça de vento? Volta lá na cozinha e me traz a colher. Colher de sopa, viu! — urrava a tia insana.

Fui num pé e voltei no outro, suando as bicas e ressabiado. Entreguei a colher à destrambelhada.

A mulher não hesitou: abriu a lata, enfiou a colher no copo d’água, tampou a lata e pediu para mim — com o maior carinho e respeito — que colocasse a lata onde a buscara. Antes, beijou os dedinhos da minha mão.

Enquanto o sobrinho regressava à cozinha, a desmiolada bebeu toda a água com o BHC num gole só.

Poucas horas depois, morreu. Morreu com os olhos esbugalhados.

Com a morte da tia maluca e a fuga do tio inconsequente, morreu também o sonho de ser caminhoneiro.


Algum tempo depois, já adolescente, decidi: quando fosse grande, seria dentista.

Num belo domingo, reunido com amigos em casa assando carne, sentiu uma forte dor de cabeça.

Tentou disfarçar, mas não teve como. Contou a um amigo — cujo pai era dentista — e decidiram que o melhor seria ir até a casa do amigo, pois o consultório do pai ficava junto à casa.

— Às vezes entrou uma lasca de osso num dente, né? — suspeitou o amigo.

O senhor Antenor, pai do amigo, pediu para o adolescente abrir a boca. Antenor, o doutor de dentes, sentenciou sem pestanejar:

— É, esse dente… vamos ter que extrair. E sua dor de cabeça vai permanecer só na lembrança.

O jovem voltou pra casa sem os dois incisivos laterais e os dois incisivos centrais. Uma semana depois, descobriu que tinha sinusite. Tratou-a durante uma semana, e a dor de cabeça sumiu — assim como sumiram seus dentes. Mas sempre teve os dentes e a sinusite na lembrança.


Dias vêm, dias vão. Chegou meu vigésimo segundo ano.

No dia do aniversário da sua namorada, a bela e singela Magnólia lhe pediu, sussurrando ao pé do ouvido:

— Amor! Você é tão forte! Treina MMA, bobo! Quero ver você brilhar na televisão, na internet. Já imaginou o tanto que a gente vai viajar, conhecer tantos países e lugares bonitos?

Treinou bastante. Tanto que, no primeiro evento que teve na cidade, o namorado de Magnólia seria a atração principal.

Cinco dias depois da luta, acordou num hospital. Levou um pontapé na tábua do pescoço, sofreu uma convulsão dentro do ringue e, em seguida, teve uma parada respiratória. Gastou todas as economias com o hospital e foi proibido de lutar. Foi abandonado por Magnólia. Casou-se com Jurema Lamas Aquino Rêgo.


Aos trinta anos de idade, Antônio Morrendo das Dores não era mais adolescente nem pequenino. Decidiu: quero continuar a ser servente de pedreiro, quero ser peão de obra, quero ser ôreia-seca.

Morrendo das Dores era feliz como auxiliar de pedreiro e era sábio. Um dia, sapecou uma máxima num boteco:

— Ser feliz é viver em paz consigo mesmo e com seus semelhantes.

A caminho da obra pela manhã, tomava uma cangibrina para esquentar o peito. No final da tarde, tomava duas doses de cachaça pra chegar calibrado em casa.

Aos domingos, ia à missa. Agradecia aos céus e ao Todo-Poderoso pelo alimento em casa, por um emprego para pagar as contas, pelos dentes que lhe sobraram na arcada dentária, por uma cabeça forte pra carregar sacos de cimento, tijolos etc. Agradecia a paz e o sossego do lar. Sempre depositava algumas moedinhas na igreja.


Num domingo, já aos sessenta anos de idade, à tarde, a casa cheia de parentes e amigos, os filhos assando a carne, a esposa fazendo o vinagrete, lembrou-se de quando se meteu a ser lutador, quando perdeu os dentes, quando a esquizofrênica da tia bebeu BHC.

Das Dores foi até a cozinha. Com dificuldades, agachou perto da pia, tateou com a mão direita e pegou uma lata que estava atrás do botijão de gás.

Levantou-se com a sensação de que alguns ossos estalaram. Aprumou-se de frente para o armário, abriu uma gaveta já enferrujada e gasta pelo uso e pela falta de manutenção. Pegou uma colher e caminhou até a mesa que estava no centro do quintal.

Pediu ao filho mais novo que pegasse um copo d'água — bem geladinha — e orientou o filho a não ter pressa. Depois, beijou-lhe as mãozinhas.

Abriu a lata, meteu a colher dentro dela, mexeu devagarinho o pó na água. Olhou em volta, sorriu despretensiosamente — um sorriso ironicamente contagiante. Absorveu, como uma bucha, o seu suco tranquilamente, aquele que guardava desde quando era pequenino. E suspirou pelo vão dos dentes da frente.


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